Como aplicar o manejo de irrigação via solo em gramado natural usando sensores, curva de retenção e cálculo de lâmina para aumentar a eficiência hídrica.


Manejo de irrigação via solo para um melhor gerenciamento da irrigação

Introdução

Em muitos gramados esportivos e áreas verdes, a irrigação ainda é realizada com base em horários fixos ou simplesmente na aparência do gramado. Embora seja uma prática comum, esse tipo de decisão frequentemente resulta em desperdício de água, variações na qualidade do gramado e aumento dos custos operacionais.

Quando não se considera o comportamento do solo, torna-se difícil saber quanto de água realmente está disponível para a planta e quando a irrigação deve ser reiniciada. Sem o manejo correto, a água aplicada ultrapassa a zona radicular ou não é suficiente para atender à demanda da planta.

Nesse contexto, o manejo de irrigação via solo surge como uma abordagem técnica mais precisa. A partir da compreensão das características físico-hídricas do solo, do armazenamento de água no solo e do monitoramento da umidade por sensores, é possível tomar decisões de irrigação mais confiáveis em áreas de gramado natural

                    

                        Figura1: Irrigação por aspersão em gramado de campo de futebol (Fonte: Wisy-water)

Manejo de irrigação via solo: entendendo o conceito

O manejo de irrigação via solo consiste em monitorar a quantidade de água armazenada no solo dentro da zona radicular da planta para determinar o momento correto de irrigar e a lâmina que deve ser aplicada.

Para isso, alguns conceitos técnicos são fundamentais:

O primeiro é a curva de retenção de água no solo, que descreve a quantidade de água que fica retida entre as partículas do solo sob diferentes níveis de tensão. Essa curva permite identificar alguns parâmetros importantes:

  • Capacidade de campo — condição em que o solo está bem abastecido de água após a drenagem natural.

  • Ponto de murcha permanente —Refere-se ao teor de umidade do solo no qual as plantas não conseguem mais absorver água de forma eficiente, levando à murcha permanente de suas folhas e perda de turgidez.

  • Umidade crítica para a cultura: ponto em que a água disponível começa a se tornar limitada para a planta.

Em relação à planta, outro fator essencial que precisamos conhecer é a profundidade efetiva do sistema radicular, que indica a profundidade onde se localizada 80 % das raízes absorventes da cultura. É dentro dessa camada que ocorre o principal armazenamento de água no solo.

Figura 2: imagem ilustrativa do sistema radicular da grama (Fonte: Freepic).

Com essas informações, torna-se possível calcular a lâmina de irrigação necessária para repor a água consumida pela planta.

Aplicação prática no campo

Na prática, o manejo de irrigação via solo envolve três etapas principais.

A primeira é conhecer o solo. Isso inclui identificar sua textura, densidade e características físico-hídricas, que determinam a sua capacidade de retenção de água.

A segunda etapa é monitorar a umidade do solo. Atualmente, diversos sensores de umidade são utilizados no Brasil e no mundo, como:

  • Sensores capacitivos

  • Sensores TDR (Time Domain Reflectometry)

  • Sensores FDR (Frequency Domain Reflectometry)

  • Sensores matriciais

Esses equipamentos permitem acompanhar, em tempo real, a variação da umidade dentro da zona radicular.

                                                

 Figura 3: Sensor Hydra100 para medição sem fio de umidade, temperatura e condutividade hidráulica.  ( Fonte: Soil Scout)

A terceira etapa é realizar o cálculo da lâmina de irrigação. Vamos a um exemplo prático:

Exemplo: cálculo da lâmina de irrigação no gramado

Para definir quanto irrigar, o caminho mais seguro é calcular a lâmina com base no déficit de água na zona radicular do gramado.

Para isso, precisamos considerar algumas variáveis técnicas importantes:

  • Profundidade efetiva do sistema radicular (Zr)

  • Umidade na capacidade de campo (θcc)

  • Umidade crítica para a cultura (θcrítica)

  • Eficiência de aplicação do sistema de irrigação (Ea)

  • Taxa de aplicação dos aspersores (mm/h)

Passo 1 — Definir a profundidade radicular

Em muitos gramados esportivos, a maior parte das raízes se concentra nos primeiros:

Zr = 0,15 m (15 cm)

Essa é a camada onde ocorre o principal armazenamento de água disponível para a planta.

Passo 2 — Determinar os níveis de umidade do solo

Com base na curva de retenção de água no solo, podemos identificar alguns valores típicos.

Exemplo fictício:

  • Umidade na Capacidade de campo (θcc) = 0,22 m³/m³

  • Umidade crítica para a cultura = 0,16 m³/m³. (Literatura).

 Quando você recebe os dados do sensor indicando que a umidade critico foi atingida (ALERTA),  precisamos irrigar! Mas qual a lâmina que precisa ser reposta?

Passo 3 — Calcular o déficit de água no perfil

Δθ = θcc − θcrítica

Δθ = 0,22 − 0,16

Δθ = 0,06 m³/m³

Agora transformamos isso em lâmina de água.

Lâmina líquida:

LL = Δθ × Zr × 1000

LL = 0,06 × 0,15 × 1000

LL = 9 mm

Isso significa que o solo precisa de 9 mm de água líquida para retornar à capacidade de campo dentro da zona radicular.

Passo 4 — Ajustar pela eficiência do sistema

Nenhum sistema aplica água com 100% de eficiência. Parte da água pode ser perdida por vento, evaporação ou desuniformidade.

Supondo uma eficiência média de irrigaçao para sistema de irrigação por aspersão:

Ea = 80%

A lâmina bruta a ser aplicada será:

Lb = LL / Ea

Lb = 9 / 0,8

Lb = 11, 3 mm

Portanto, a lâmina de irrigação programada deve ser aproximadamente 11,3 mm.

Passo 5 — Converter a lâmina em tempo de irrigação

Agora usamos a taxa de aplicação do sistema.

Exemplo:

Taxa de aplicação  = 18 mm/h

Tempo de irrigação:

Tempo = Lb / taxa

Tempo = 12 / 18

Tempo ≈ 0,67 horas

Convertendo:

Tempo ≈ 40 minutos

Ou seja, nesse exemplo, cada setor deveria irrigar aproximadamente 40 minutos para repor o déficit hídrico do solo.

Conclusão

O manejo moderno da irrigação exige decisões cada vez mais baseadas em dados técnicos. Compreender como a água se comporta no solo permite determinar com precisão quando irrigar e quanto irrigar.

Ao utilizar informações como curva de retenção de água no solo, armazenamento de água na zona radicular e monitoramento por sensores, o profissional passa a ter controle real sobre o manejo da irrigação.

Mais do que uma ferramenta técnica, o manejo de irrigação via solo representa uma evolução na gestão do uso da água em gramados naturais, contribuindo para maior eficiência hídrica, redução de custos e melhoria da qualidade das áreas irrigadas.

Profissionais que dominam esse conceito passam a tomar decisões mais seguras, técnicas e alinhadas com os desafios atuais da sustentabilidade no uso da água.

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